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No universo infantil

Primeiro livro da triologia da vida do escritor sul-africano

J.M. Coetzee é um escritor premiado. Recebeu o Nobel da Literatura em 2003 e faturou, por duas vezes, o Booker Prize – feito inédito. Infância é o título de um de seus romances, publicados no Brasil pela Companhia das Letras. No livro, o retrato que ele pinta de sua tenra idade, vivida em uma pequena cidade na África do Sul no final dos anos 1940, encaixa-se perfeitamente ao termo Bildungsroman – romance de formação. J.M. Coetzee, porém, não faz de sua obra uma autobiografia simplesmente. Ele a constrói como ficção também, deixando ao leitor escolher o caminho que quer trilhar.

O enredo acontece no ambiente onde uma criança de 10 anos vive. Escola e professores. Colegas de classe e amigos. Parentes e vizinhos. Casa e rua. Nada parece escapar ao olhar irrequieto e feroz do menino, que, em silêncio, ama desesperadamente a mãe e amaldiçoa o pai. A busca por uma identidade faz com que a personagem principal mergulhe em seu próprio mundo de interrogações para encontrar uma maneira para viver em paz com suas dúvidas, medos, angústias e esperanças.

Apesar das excelentes notas, não gosta da escola. Enrijece só de pensar em estudar em uma classe composta somente de alunos de ascendência africânder – algo que carrega em seu sobrenome, Coetzee. Toda a vez que acorda com rinite, passa a manhã lendo. Mas, por enquanto, prefere as companhias de livros de aventuras aos de filosofia ou romance. Foi com essas leituras que se viu católico ante a possibilidade de escolher ser judeu ou cristão. Mas sua opção tornou-se um duro fardo a ser escondido de todos quando ele soube que o catolicismo não tem nada a ver com as aventuras romanas de Horácio.

Praticamente, toda a história se passa na residência dos Coetzee, em Worcester. Descobre uma afinidade, que não teme esconder, na prima. Mas a possibilidade de amá-la é logo descartada pelo grau de parentesco. Na verdade, ama a maneira com a prima vive na fazenda, longe das ordens familiares e do cuidado da mãe. É este o nível de libertação que tanto almeja alcançar aos 10 anos de idade. Parece impossível, contudo. Volta-se à introspecção e segue tentando compreender porque a mãe é tudo o que o pai poderia ser, mas não é.

A ingenuidade da infância vai desvanecendo à medida que a adolescência bate à porta. A família do menino muda-se para a Cidade do Cabo, já que o pai não vê mais futuro no burocrático trabalha numa empresa de alimentos. Lá, a criança está diante de uma grande cidade. Começa a observar outras diferenças, a ter outras inquietações. Ele se vê enfim livre em face ao novo lar. Entre seu primeiro alívio, está o fim da farsa de ser católico, apesar de estudar numa escola católica de padres maristas.

O livro não oferece respostas. J.M. Coetzee segue fiel a sua estética narrativa. Por isso, mais do que conhecer a infância do autor, retratada numa mistura de ficção com autobiografia, o leitor se vê diante da possibilidade de descortinar o cenário de sua própria infância. E cabe somente ao leitor encontrar as respostas. Não importa qual percurso escolha. Tanto a ficção como a autobiografia será capaz de conduzi-lo pelas contradições daquele idade, rica e sem vício. Basta procurar atento e sem medo. É este o grande mérito de Infância.

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Categorias:Literatura
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. 08/09/2010 às 18:53

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